Nos ombros do gigante

“Nos ombros do gigante se consegue ver mais longe.” Esta frase, eternizada no século 17 por Isaac Newton[1],  é hoje a grande metáfora para a batalha em torno da questão dos direitos autorais e patentes na internet. Para Newton, o que sabemos é o resultado do conhecimento herdado de pesquisadores e pensadores que nos antecederam.

Assim, segundo o homem que é considerado um dos pais da física moderna, quando há colaboração na ciência é possível ver mais longe, o que imediatamente nos coloca diante da ideia de que quanto mais livre e fluida for a troca de conhecimentos, maior será o beneficio para todos.

A lógica do “ ombro do gigante”  entra em conflito direto com a lógica do mercado onde o fluxo dos conhecimentos não é determinado pela colaboração, mas, sim, pelo preço atribuído a dados, ideias e informações — o que inevitavelmente aumenta o custo da inovação e limita a criatividade.

A polêmica sobre o direito autoral é muito antiga, mas ganhou uma nova importância com a chegada da era digital e passou a afetar diretamente a atividade jornalística. Houve uma mudança qualitativa no manejo dos dados, fatos e processos que alimentam a produção de novas ideias, produtos e serviços.   

A vertiginosa quantidade de material informativo disponibilizado pela internet gerou um novo ambiente para a inovação ao permitir que um número muito maior de pessoas passasse a desenvolver suas habilidades e competências.  Prova disto é a incrível velocidade de produção e diversidade de oferta com que novos produtos e serviços foram incorporados ao consumo mundial desde a invenção do computador e do processo de digitalização.

Até a era digital a produção de conhecimento era extremamente concentrada devido ao altíssimo custo para recolher, processar e publicar informações e conhecimentos.   A concentração favorecia o controle e o monopólio, gerando com consequência preços altos e condicionamentos políticos à liberação de inovações — como foi, por exemplo,  o caso da frequência modulada em transmissões radiofônicas.

A empresa norte-americana RCA bloqueou durante 10 anos o inicio das transmissões porque tinha o monopólio da tecnologia e queria recuperar primeiro os investimentos feitos no sistema AM.

A rigidez das leis regulando a autoria dificulta e, em alguns casos, bloqueia a criação de novos produtos, porque o custo pela cessão de direitos é tão alto que inviabiliza qualquer nova iniciativa. Esse tipo de restrição acaba estimulando a pirataria porque a internet oferece também inúmeras formas de passar ao largo dos regulamentos e das leis.

Mas o problema mais grave não é a pirataria, como reconhece Sergei Brin, co-fundador do site de buscas Google,  numa entrevista ao jornal inglês The Guardian.  A ameaça está no futuro na economia mundial, que hoje depende cada vez mais da inovação e criatividade.  Brin diz que o livre fluxo de conhecimentos garante o crescimento da economia mundial e que este crescimento depende de uma internet livre. “ A balcanização da rede, provocada por empresas como a Facebook, é uma séria ameaça ao nosso futuro”, diz Brin, que aproveita para defender os interesses da Google, cuja sobrevivência como sistema de buscas na Web depende do livre acesso a todos os sites e bancos de dados na rede.

O que já existe é uma guerra, ainda pouco ruidosa, entre empresas que tentam se agarrar ao velho sistema para ganhar tempo até descobrirem uma forma de sobreviver na era digital; e as novas corporações para as quais o direito de autoria é um freio, pois seu negócio depende da inovação constante.  O direito de autoria está associado à era em que quanto mais tempo um produto ou ideia ficasse “na prateleria” maior o lucro do fabricante ou criador.

Hoje o processo é bem diferente. O mais importante passou a ser o processo de desenvolvimento do produto ou ideia. É o que garante a inovação permanente porque a concorrência é inevitável e intensa. No caso dos tablets, a Apple saiu na frente, mas a concorrência imediatamente inundou o mercado com produtos similares, mais baratos e, em alguns casos, até melhores.  

Ninguém imagina a Apple tentando impedir que outras empresas também fabriquem tablets. Haveria uma gritaria planetária.  O segredo das empresas de ponta está no desenvolvimento constante  de novos produtos, sem os freios e limitações da atual legislação sobre direitos autorais e patentes .  É na inovação que as empresas começam a ganhar e não em produtos ou serviços isolados.


[1] Na verdade a frase vem da mitologia grega  onde o gigante cego Orion carregava nas costas o anão Cedalion para “ver” o que os outros não viam. No século 12, a mesma frase foi aplicada pela primeira vez como metáfora para a produção do conhecimento, mas só ganhou relevância mundial ao ser usada por Newton.

Os cyber jedis e a nova Guerra Fria digital

Os Estados Unidos ganharam a Guerra Fria nuclear sem disparar um tiro, mas podem estar perdendo a versão cibernética do conflito pela supremacia mundial. E acredite quem quiser: a nova superpotência virtual  é a China, apontada pelos especialistas ocidentais em segurança cibernética como a maior incógnita contemporânea no que se refere a políticas de uso da internet.

Os norte-americanos não admitem publicamente, mas o jornal inglês The Guardian afirmou na série "Batalha pela Internet" que o número de chineses especialistas em crackear [1] computadores e redes virtuais é maior do que o dos engenheiros norte-americanos dedicados ao desenvolvimento de novos programas e equipamentos para computação. Os crackers chineses são conhecidos também como cyber jedis (guerreiros cibernéticos), numa analogia com os guerreiros do bem na série Guerra nas Estrelas.

No fundamental, a nova versão da Guerra  Fria é essencialmente uma guerra por informações onde as armas convencionais passaram a um segundo plano, para desespero de toda a multimilionária indústria bélica mundial. Os jedis chineses, em sua esmagadora maioria protegidos pelo governo de Beijing, vasculham o sistema financeiro ocidental, as redes de comunicações privadas e governamentais, descobrem vulnerabilidades em bancos de dados, em complexos de energia e transporte, bem como, é óbvio, nos serviços de inteligência militar.

A grande diferença em relação à Guerra Fria nuclear é que agora a busca por informações não está voltada para o botão vermelho da retaliação atômica, mas a um complexo e ainda pouco estudado sistema de tomada de decisões no qual os indivíduos estão sendo substituídos por processos  impessoais, como as bolsas de valores.  A balança do poder mundial não depende mais exclusivamente de decisões tomadas na Casa Branca ou no Palácio do Povo, em Beijing.

A descoberta do poder chinês na internet assustou os governos ocidentais, em especial os Estados Unidos e a Inglaterra, onde os seguidores da velha Guerra Fria ainda são muito influentes. Se até a queda do Muro de Berlim (1989) , os espiões e cientistas nucleares eram os grandes alvos dos estrategistas soviéticos e norte-americanos, agora todas as atenções se voltam para jovens entre 17 e 30 anos, a faixa etária dos modernos guerreiros cibernéticos, um ramo dos nerds (jovens fanáticos por computação).

Em 2011 foi criado na Inglaterra um projeto chamado Cyber Security Challange (Concurso sobre Segurança Cibernética)  destinado a atrair nerds  para o campo da Guerra  Fria cibernética.  Logo na primeira edição, no ano passado, quatro mil jovens de ambos os sexos se inscreveram para a competição, que não chegou a ser divulgada na imprensa. No ano passado, o vencedor foi Jonathan Millican, estudante do primeiro ano de engenharia eletrônica, com 19 anos incompletos.

O julgamento final da versão 2012 Cyber Security Challange deveria ter ocorrido em março, mas teve que ser adiado porque o site do concurso foi crackeado, segundo os britânicos, por cyber jedis chineses. Os prêmios previstos no concurso variam desde bolsas de estudo até inscrição grátis em eventos ligados à segurança cibernética. Não há prêmios em dinheiro, mas segundo o jornal The Guardian, o emprego em empresas do setor é imediato.

São garotos como Jonathan que passaram a ser observados de perto por estrategistas mililtares que acabam de receber plenos poderes do presidente Barack Obama e do governo inglês para desenvolver uma estratégia antichinesa na guerra pelo controle da internet. Segundo a Casa Branca, cerca de 60% das empresas norte-americanas que tiveram seus sites invadidos por crackers acabaram pedindo falência.  

Até agora a principal estratégia do Pentágono era criar muros virtuais (firewall) contra invasões de redes de computadores, mas os especialistas já se deram conta que a defesa passiva é inútil, porque a criatividade dos cyber jedis é quase infinita. Para cada muro criado surgem imediatamente dezenas de opções sobre como derrubá-lo. Por isso a tendência é investir nas ações ofensivas, atacando os centros onde se aglutinam os guerreiros virtuais.

O problema é que a dispersão é enorme nessa área, da mesma forma que o altíssimo índice de privatização das empresas ligadas ao gerenciamento de informações na web  complica a ação dos militares, cuja cultura operacional é tradicionalmente centralizadora e vertical. Nos Estados Unidos, de 80% a 90% dos bancos de dados estão em mãos privadas, o que torna extremamente relevante o papel da Google, a megacorporação no setor de informações e a terceira maior empresa privada do mundo no ramo das comunicações.  

A estratégia da Google na Guerra Fria cibernética é fundamental para a balança do poder entre os Estados Unidos e a China, mas também transcendental para nós, que usamos gratuitamente os mecanismos de busca, correio eletrônico, YouTube e dezenas de outros aplicativos desenvolvidos pela empresa para captar nossas preferências e dados pessoais.


[1]Neologismo criado para expressar o ato de identificar códigos, senhas e arquivos protegidos em computadores ou redes de computadores. Os crackers são o oposto dos hackers, que desenvolvem novos softwares.

Os órfãos da notícia no meio da avalancha informativa

Um programa de televisão chamado O Mundo do Futuro,disponivel na  internet, é uma metáfora do universo informativo que o futuro nos reserva. O programa é conduzido por um engenheiro australiano em prisão domiciliar na Inglaterra, acusado de publicar segredos do governo norte-americano; numa emissora localizada em  lugar não identificado na Rússia; e que na sua primeira edição teve como entrevistado um líder palestino que vive na clandestinidade no Líbano, acusado por Israel de ser um cérebro do terrorismo árabe.

Impossível ser mais heterodoxo em matéria de informação jornalística. Quase todos os parâmetros tradicionais foram quebrados na mais recente iniciativa do engenheiro Julian Assange, criador do controvertido site Wikileaks.  que está fora do ar porque suas contas bancárias foram bloqueadas pela justiça.

A primeira coisa que chama a atenção é a queda dos referenciais entre legalidade e ilegalidade. Na Inglaterra, Assange pode ser condenado a 10 anos de cadeia, mas na Rússia ele conta com a simpatia governamental. Ele é um programador de computadores mas age como se fosse jornalista. Ele grava programas desde sua casa para uma emissora que transmite pela internet e ninguém sabe onde fica. E, para terminar, conversa durante quase uma hora com Hassan Nasrallah, líder da organização Hezbollah, que vive em algum lugar do Líbano.

A entrevista, em si, não contém nenhuma revelação espetacular, mas impressiona pelo fato de que quase tudo nela foge aos parâmetros que marcam a nossa cultura informativa.  A sensação que se tem é de que estamos num terreno desconhecido, sem referências conhecidas para avaliar credibilidade e veracidade. Tudo é fluído e não está vinculado a estruturas materiais como endereços físicos e garantias legais.

Fica a ideia de que teremos que descobrir por conta própria o que é verossímil ou não, o que é relevante e o que não é, se devemos crer ou descrer do que nos é apresentado. Em última análise, é uma espécie de orfandade informativa, em que estamos entregues à própria sorte em meio à avalancha noticiosa gerada pela digitalização e pela computação.

O programa O Mundo do Futuro não é um caso isolado. Há centenas de vídeos  similares na internet.  O que ele nos mostra é que o fenômeno da informação desprovida de referenciais tradicionais está em expansão e não vai tardar muito para que se torne majoritário.  Estamos saindo de um modelo para ingressar noutro, que ainda é uma grande incógnita, em meio a uma cacofonia informativa inédita na história contemporânea..

Com tantas dúvidas, uma  certeza começa a ganhar corpo. Nós teremos que aumentar o número de horas dedicadas à avaliação das informações que recebemos.  Vai dar mais trabalho separar o joio do trigo em matéria de noticiário, mas também não há dúvida de que isto nos tornará muito mais preparados para lidar com a avalancha noticiosa.  Não há escapatória, porque a alternativa seria nos transformar em párias ou ermitões informativos, uma hipótese que pode ser viável para alguns indivíduos, mas jamais poderá ser uma panacéia para a sociedade. 

Quem perde com o desaparecimento da imprensa local?

Para variar terei de me apoiar mais uma vez em estatísticas norte-americanas para colocar na mesa um tema que interessa também aos brasileiros:  o jornalismo local e hiperlocal.  Segundo uma  pesquisa do Pew Center, 72% dos norte-americanos seguem regularmente o noticiário do local onde moram e 32% admitiram que sua vida seria gravemente afetada caso a imprensa comunitária desaparecesse.

Aqui no Brasil, não conheço uma pesquisa feita nos mesmos moldes e, se houvesse, provavelmente os números seriam diferentes por conta das debilidades crônicas de nossa imprensa regional e pelo histórico fascínio do resto do país pela agenda do eixo Rio-São Paulo-Brasilia.

Isto não quer dizer que não tenhamos bons jornais nos demais estados e nem que a realidade do interior do país sejam menos interessante do ponto de vista jornalístico do que o que ocorre nos dois maiores centros urbanos e na capital política do país. É que nosso cardápio informativo quotidiano está de tal maneira impregnado pela agenda carioca, paulista e brasiliense que nem nos damos conta de que coisas também acontecem noutras regiões.

O bombardeio  noticioso com eventos ocorridos no eixo Rio-São Paulo acabou contribuindo para a intensificação da perda de identidade nas comunidades do interior, um fenômeno que começou a ganhar corpo nos anos 1970 com a migração cada vez maior de pessoas de região para região no Brasil e com o processo de globalização econômica e social. Hoje, aqui como nos Estados Unidos, há consideráveis setores da população interiorana que sentem-se desenraizados, fenômeno estudado pelo britânico Anthony Giddens [Modernidade e Identidade. Anthony Giddens. Jorge Zahar. 233 páginas. 2002] 

Os norte-americanos já começam a se mostrar preocupados com o futuro da imprensa regional e local diante das mudanças em curso em todo o sistema jornalístico do país. É uma preocupação com o tipo de informação que estará à disposição dos moradores de pequenas e médias cidades, mas também sobre a forma como o jornalismo comunitário e regional poderá contribuir para a sobrevivência da indústria da comunicação.

Desorientadas, as pessoas voltam gradualmente a se reagrupar em comunidades com a preocupação básica de buscar algum tipo de identidade, seja a perdida seja uma nova, conforme a teoria desenvolvida pelo catalão Manuel Castells, no seu livro O Poder da Identidade [Editora Paz e Terra, 532 páginas.2000].  Segundo Castells, esse processo assume formatos e propostas que variam de continente para continente, mas mantém uma preocupação básica: criar novas comunidades sociais, usando ferramentas presenciais ou virtuais.

É nesse contexto que as pessoas voltam a se interessar pela informação local criando um novo espaço para a imprensa e um novo mercado de consumidores de notícias, já que é patente a perda de interesse dos leitores pela agenda política nacional. Alguns jornais como O Globo já se deram conta desse fenômeno e multiplicam as iniciativas e projetos voltados para o público local.

Acontece que ai surge um novo problema. A cobertura local é cara porque implica uma diversificação de informações e consequentemente a criação de um amplo quadro de repórteres e informantes.  Simultaneamente, as indústrias jornalísticas passam por um momento de vacas magras, onde tudo o que implica gastos vai imediatamente parar nos últimos lugares da lista de prioridades.  O fator econômico é apontado unanimemente como o grande fato limitante no crescimento da mídia local, tanto pela pesquisa do Pew Center como por investigações acadêmicas aqui no Brasil .  

Para atender à demanda da população e contornar as dificuldades financeiras, os jornais não têm outra alternativa senão desenvolver uma parceria com o público. Os leitores têm hoje acesso fácil a telefones celulares com câmeras e muitos conseguem até usar a internet com telefones inteligentes. A imprensa terá de criar uma relação com o público para que ele colabore como provedor de material para notícias, mas para que esta parceria seja duradoura os jornais devem retribuir dando aos leitores maior participação no processo de produção informativa.  

É nesse ponto que está o X do problema, porque isto implica a mudança de alguns comportamentos muito antigos, que levaram a imprensa a vincular-se mais ao poder do que aos seus leitores.

 

Internet torna cada vez mais difícil a vida dos políticos tipo "duas caras"

O comunista Bo Xilai, governador da região de Chongqing , o mais importante centro industrial do sul da China, e o senador Demóstenes Torres, um anticomunista histórico e paladino da honestidade, cometeram o mesmo pecado.  Ambos  são protagonistas de escândalos políticos porque tinham uma “outra cara” radicalmente diferente da que mostravam para seus seguidores e colegas de poder.

Bo Xilai foi afastado do seu cargo e também da direção do Partido Comunista de China depois que o governo não pôde mais controlar a avalancha de denúncias surgidas na internet contra um político que era uma estrela em ascensão no PC, principalmente por sua implacável repressão ao crime organizado e à corrupção na região de Chongqing, considerada uma das “vitrines” do milagre econômico chinês.

O escândalo ganhou conotações ainda mais sensacionalistas com o suposto envolvimento de Gu Kailai, mulher de Xilai,  no misterioso desaparecimento do empresário inglês Neil Heywood,  encontrado morto num hotel de Chongqing, em novembro do ano passado. Neil era muito amigo de Bo Xilai, considerado  um forte concorrente à liderança do PC chinês.

Até agora os líderes comunistas foram discretos na divulgação das acusações contra Xilai, um político estilo rolo compressor, tido como oportunista e que usava slogans maoístas para conquistar adeptos entre os mais jovens e entre os velhos desencantados com o crescimento da corrupção na China.

Tanto o caso Xilai como o episódio Demóstenes mostram como a transparência informativa deflagrada pela internet está permitindo identificar os políticos que adotaram a estratégia das duas caras para ludibriar seguidores e parceiros. O caso chinês tem algumas outras características que o fazem ainda mais significativo.

Em primeiro lugar, a cúpula do PC não conseguiu segurar o sigilo em torno do caso, embora as suspeitas de oportunismo e individualismo de Xilai tenham mais de um ano.  Em meados da década de 1970, o escândalo em torno da polêmica mulher de Mao Tse Tung [1] foi ocultado durante meses. A diferença é que agora a internet derrubou o muro do silêncio e obrigou as autoridades a tornar público o caso, sob risco de perder o controle da situação.

É claro que o episódio também está associado à luta pelo poder no momento em que o PC chinês se prepara para uma transição política inédita na sua história. Uma nova geração assumirá o poder do país que é visto hoje como a grande  incógnita da economia mundial.

O papel da internet na política chinesa ainda está marcado por mais dúvidas do que certezas, mas lentamente começa a emergir um perfil mais claro. As informações e boatos sobre o caso Xilai circulam com intensidade crescente desde fevereiro, quando o chefe de polícia de Chongqing  e principal artífice da campanha contra a corrupção e crime organizado pediu asilo nos Estados Unidos. A soma de todos esses elementos mostra que o caso Xilai  tem muito pano para manga e que os internautas chineses ainda terão muita munição para blogs e redes sociais.  

O fato concreto é que o controle do PC chinês sobre a circulação de informações já não é mais o mesmo, a exemplo do que acontece nos países onde a internet está se tornando um ator político de peso.  O enfraquecimento da centralização dos fluxos informativos, somado à disputa cada vez mais selvagem por posições de poder,  transformaram a arena da opinião pública num ambiente altamente complexo e imprevisível.

Se isto é bom ou mau é cedo para dizer, mas uma coisa parece cada vez mais provável: políticos com duas caras terão uma vida cada vez mais difícil para manter as aparências.

Xilai e Demóstenes que o digam.


[1]Jiang Qing, o nome verdadeiro da famosa Madame Mao, foi um personagem controvertido durante o conturbado período da Revolução Cultural (1966–1976), quando o PC tentou impor uma mudança radical de comportamentos no dia a dia dos chineses.  Madame Mao foi uma das lideres do movimento que se tornou mundialmente conhecido pelo seu radicalismo.

Watergate 40 anos. Como seria hoje a cobertura do escândalo?

Esta foi a pergunta feita aos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, as estrelas principais do congresso anual da Sociedade de Editores de Notícias dos Estados Unidos (ASNE), que promoveu uma celebração antecipada dos 40 anos do escândalo investigado pelos dois jornalistas e que culminou na renúncia do então presidente Richard Nixon.

Woodward e Bernstein tentaram responder,  mas não conseguiram ir além de uma nostálgica constatação de que os tempos mudaram e que os jovens estudantes de jornalismo nas faculdades de hoje estão mais preocupados com as novas tecnologias do que com os protagonistas da informação diária.

A provocação feita por um colega de Woodward e Bernstein motivou um professor da universidade de Yale a pedir que alunos da escola de jornalismo escrevessem textos contando como acham que o escândalo seria coberto hoje. A maioria confessou que iria imediatamente para a Internet buscar informações.

A reação dos estudantes deixou Woodward indignado,  mas a pergunta vale um debate porque a questão pode ajudar a entender melhor o contexto informativo no qual estamos mergulhados.  A troca de ideias pode ajudar novos e velhos jornalistas a achar pontos de identificação, em vez de antagonismos estéreis.

Para começar, temos que ver o ambiente político da época em que os dois jornalistas do Washington Post  iniciaram uma investigação que se tornaria um marco na história do jornalismo mundial.  O caso Watergate ganhou tanta repercussão porque a política do início dos anos 1970 ainda estava marcada por uma imagem moralista. Hoje são tantos os casos de corrupção e espionagem ilegal  que pipocam em governos de todo mundo que a desastrada invasão dos escritórios do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington DC, seria vista apenas como mais um item na carregada pauta de escândalos políticos.

Além disso, é certo que Woodward e Bernstein teriam a companhia de milhares de blogueiros despejando na internet uma avalancha de informações, a maioria de difícil comprovação imediata, fazendo com que o público assumisse uma posição desconfiada. Isso sem falar no inevitável  surgimento de versões dos acusados ou suspeitos, postadas em sites como o Twitter ou outras redes sociais.

Em 1972, os leitores do Washington Post puderam acompanhar as investigações do escândalo de forma ordenada, sequencial , seguindo o padrão jornalístico tradicional. Hoje, isto seria impossível diante da cacofonia noticiosa que imediatamente ocuparia quase todos os canais de comunicação. 

Os repórteres do Post dificilmente teriam conseguido hoje brilhar sozinhos na ribalta jornalística criada em torno de Watergate, como aconteceu há quatro décadas. Seus 15 minutos de fama que se prolongaram até hoje provavelmente não teriam durado mais que o tempo para que o trendsets (seguidor de tendências)  do Twitter registrasse o surgimento de um novo fenômeno de audiência online.

Woodward e Bernstein obtiveram quase todas as informações sobre o envolvimento de assessores do presidente Nixon da boca de um informante congnominado “Garganta Profunda” (Deepthroat), só muitos anos depois identificado como Mark Felt, um funcionário da CIA.  Na era da internet, muito provavelmente ele teria criado o seu próprio blog e suas informações passariam a ser de domínio comum da imprensa. 

No submundo contemporâneo da “arapongagem”, os informantes trocam informação por algo que geralmente é a impunidade. Mas  na era digital é mais negócio usar o anonimato da rede para soltar notícias porque o autor tem mais controle sobre a divulgação das mesmas, e  fica livre para negociar com quem pagar mais ou oferecer mais vantagens. 

A lista de comparações entre o Watergate analógico dos anos 1970 e  os escândalos contemporâneos têm uma diferença fundamental.  Há 40 anos, a imprensa tinha o controle sobre a divulgação das acusações, investigações e acusações porque era o principal canal de informações para o público. Hoje, ela  continua dependente de “gargantas profundas” como mostram os escândalos recentes em Brasília, mas tem que competir com blogs e qualquer jornalista com acesso à internet.

Na década de 1970, o mundo ainda podia ser analisado na base dos bons contra os maus. Hoje a coisa está muito mais complicada, o que torna muito complexo o trabalho da imprensa, especialmente  quando  ela leva a sério a sua função de checar as denúncias e revelar os interesses por trás de acusações ou notícias “plantadas”.

Estas são apenas algumas comparações possíveis, pois o assunto é vasto e complexo. Os leitores certamente têm muitas outras e podem compartilhá-las aqui, usando a seção de comentários.

O jornalismo "de poltrona" surpreende e ganha adeptos

Na era do jornalismo fast food, ganha corpo uma tendência que contraria tudo aquilo que vem sendo cantado em prosa e verso pelos defensores da leitura instantânea. É o crescimento dos interessados no chamado jornalismo de formato longo ( inglês long format journalism), uma modalidade de jornalismo que entre nós também é conhecida como grandes reportagens, ensaios ou pensatas.

No começo deste ano, uma reportagem de aproximadamente duas mil palavras (quilométrica nos padrões dos 140 caracteres do Twitter) publicada pela revista norte-americana Forbes foi vista por três milhões de leitores e recebeu espantosos dois mil comentários. O fenômeno levou Lewis DVorkin, diretor de produtos jornalísticos do grupo Forbes, a pesquisar os índices de audiência de outros textos longos  publicados pela empresa. E a surpresa foi total.

Os resultados mostraram que nada menos que 12 textos publicados desde janeiro e que tinham no mínimo 1.500 palavras haviam conseguido índices de audiência superiores a 500 mil leitores (page views, jargão para páginas visitadas) .É  muito mais que a média das noticias curtas publicadas pela revista e que são apontadas com modelo preferido dos leitores online.

Mas não é só isso. O crescimento do jornalismo de poltrona, em que o leitor senta para ler, ao contrário do jornalismo fast food geralmente consumido em pé, em intervalos ou em movimento,  tornou-se possível graças à multiplicação de sites na internet voltados exclusivamente para textos longos, como é o caso do Longreads  e ferramentas como o Read it Later (leia mais tarde).

O novo filão comercial  não demorou a ser descoberto também pela livraria virtual Amazon, que criou oprojeto Kindle Single,  em que podem ser publicados textos de 5 mil a 30 mil palavras.  Em meados de março, a Amazon anunciou que já vendeu 2  milhões de textos desde o lançamento do projeto, em 2010. O número é pequeno no mar de megacifras da internet, mas é tido como surpreendente num contexto onde todo mundo apostava que os textos longos continuaria um monopólio do impresso.

Outro fator que contribuiu para aumentar a leitura de textos longos foi  a popularização dos tablets (iPad e similares) e livros eletrônicos (tipo Kindle e Nook), bem como dos telefones inteligentes (smartphones)  com telas de cinco ou mais polegadas que facilitam a leitura em dispositivos móveis.  

Até a virada do século, o jornalismo de poltrona era um quase monopólio das edições dominicais dos jornais e das revistas semanais. Com a crise do modelo de negócios dessas duas modalidades de empresas jornalísticas, o gênero dos textos longos acabou pagando o preço dos problemas corporativos. A modalidade ressurge agora amparada por um novo formato que torna ainda mais acessível a ubíqua a leitura de grandes reportagens e ensaios.

Isso revela que as novas tecnologias não necessariamente são um sinônimo de superficialidade e cultura rasa. O fenômeno do longo formato mostra que  o gênero fast food  e o jornalismo de poltrona podem conviver  bem e funcionar como complemento um do outro. No site Longreads, há textos de mais de 10 mil palavras que receberam uma versão fast food para atrair leitores.

 No caso específico do material publicado em plataforma digital, existe a vantagem adicional de os textos poderem ser complementados com vídeos e principalmente incorporarem a interatividade com os leitores, o que aumenta a riqueza da produção intelectual tanto de quem escreve como de quem lê.

Jornalismo local: luz no fim do túnel

Pelo quarto ano consecutivo o informe State of the News Media 2012  dedica um espaço especial ao jornalismo local, apontado como uma das grandes tendências no desenvolvimento da imprensa nos Estados Unidos e no mundo. Ao longo destas quatro edições, o enfoque dos autores dos informes vem se tornando cada vez mais otimista, embora reconhecendo que este nicho do jornalismo ainda enfrenta inúmeros dilemas.

A preocupação dos norte-americanos em explorar as potencialidades do jornalismo praticado em escala local e hiperlocal (ruas, bairros ou pequenas cidades)  contrasta com a nossa despreocupação com um tema, que pode não interessar às empresas jornalísticas, mas tem implicações diretas e palpáveis na forma como os brasileiros têm acesso à informações que afetam diretamente o seu dia a dia em casa, no transporte, no trabalho e na diversão.

Desde o State of the News Media 2010, os autores do informe defendem a tese de que a cobertura local é uma opção que não pode ser descartada no momento em que a imprensa está sendo obrigada a rever seu modelo de negócios.  Esta alternativa tornou-se viável com o surgimento das novas tecnologias de informação e comunicação que facilitaram enormemente a produção autônoma tanto por profissionais independentes como por amadores.

Na edição deste ano, o informe já não se limita a falar apenas das potencialidades do jornalismo local, mas enumera algumas receitas com base na análise das experiências de projetos fracassados e exitosos. Trata-se de experiências que deveriam ser adaptadas ao contexto brasileiro porque a demanda por informação comunitária sempre existiu, o problema é que as empresas não tinham e não têm condições financeiras para arcar com os custos da cobertura local, que exige muita gente para cobrir, por exemplo, os 154 bairros de uma cidade como São Paulo.

Hoje já não há  mais dúvidas de que a cobertura jornalística local e hiperlocal só é possível com a participação do público na produção de notícias. Mas  a experiência também mostrou que não adianta centenas de pessoas começarem a mandar fotos ou notícias para um jornal porque ele não terá condições para processar todo esse material. A alternativa óbvia são sites de noticias produzidos por jornalistas independentes, que funcionam como intermediários entre o cidadão e a imprensa. Acontece que essa modalidade de jornalismo enfrenta o dilema da sobrevivência financeira; até agora, o índice de mortalidade das iniciativas era desencorajador. 

Segundo o informe 2012, já é possível ver luz no fim do túnel.  A principal constatação é a de que são viáveis parcerias entre os independentes e as empresas, mediante a troca de conteúdo por audiência, no caso de microempreendedores, ou por experiência, no caso de sites noticiosos locais patrocinados por escolas de jornalismo para formar profissionais.  É um acordo bom para os dois lados e que garantiu a sobrevivência de projetos como o Grand Avenue, um site de notícias hiperlocais sobre o bairro de Coconut Grove,  em Miami,  produzido por estudantes da Universidade da Flórida em parceria com o jornal Miami Herald.

No caso dos jornalistas independentes, eles fornecem conteúdos para empresas jornalísticas em troca de visibilidade e acesso ao grande público. Esta parceria é cada vez mais comum em jornais regionais norte-americanos, uma vez superados os problemas de desconfiança mútua. O problema é que os independentes não tinham os conhecimentos necessários em empreendedorismo para tornar sustentável a sua atividade. 

Hoje nos Estados Unidos já existem grandes consórcios de jornalistas, como o  Authentically Local  formada por 60 sites locais, e a rede Patch, criada pela America Online (Aol) e presente em 23 estados norte-americanos. O amadurecimento das experiências de cobertura local e hiperlocal provocou o surgimento de cursos de empreendedorismo informativo em cerca de 20 universidades, também nos EUA.

Para os novos empreendedores jornalísticos a grande dica é a diversificação das fontes de renda, variando desde a inserção de banners publicitários até a produção de reportagens patrocinadas, como  no caso do site Spot Us.  Tratam-se de reportagens  investigativas, de serviços ou coberturas de eventos pagas  por cidadãos interessados em obter informações sobre fatos e processos de interesse público.

Outra alternativa para assegurar a sustentabilidade de sites noticiosos locais é o da diversificação de fontes de renda. Para que esse tipo de projeto dê certo é essencial a prática de um jornalismo de imersão na comunidade, a exemplo do  que fazem alguns sites como o das cidades Tarrytown e Sleepy Hollow, em Nova York. Nessa estratégia é indispensável  uma interação ampla e constante entre os jornalistas e a comunidade para  que as duas partes identifiquem oportunidades de colaboração mutuamente interessantes.

As novas possibilidades de autofinanciamento de projetos jornalísticos locais não garantem sucesso automático porque cada situação é diferente. Segundo os especialistas consultados pelo State of the News Media 2012 , a taxa de mortalidade empresarial no setor ainda é muito alta, mas pelo menos surgiram mais iniciativas novas  em 2011 do que as que naufragaram no mesmo ano.

Grandes empresas da internet de olho no público e arquivos da imprensa convencional

A edição 2012 do informe sobre o estado da imprensa norte-americana aponta uma tendência que pode mudar a cara das indústrias da comunicação tanto lá como no resto do mundo, inclusive no Brasil. Trata-se do crescente interesse das principais empresas da internet nos conglomerados jornalísticos que controlam os mais importantes jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão do planeta.

Amazon, Google, Facebook, Yahoo! e Apple emitiram recentemente claros sinais de que podem se aproveitar das dificuldades da imprensa convencional em enfrentar a aguda queda de receitas publicitárias para fazer “ofertas irrecusáveis” de parcerias em que a cereja do bolo é o valiosíssimo arquivo de notícias publicadas ao longo de mais de um século -- e a não menos cobiçada relação entre jornais e revistas com um público fidelizado há décadas.

Até agora as gigantes da internet preocupavam-se quase que exclusivamente em disputar mercados digitais entre si, sem dar muita importância para a imprensa convencional, vista com um certo desdém pelos executivos de Silicon Valley, a Meca dos empreendedores e nerds da internet.

Mas segundo o informe  State of the News Media 2012, tudo isso está mudando.  O YouTube fechou uma parceria com a Reuters, por meio da qual agência de notícias começará a produzir documentários jornalísticos para serem divulgados conjuntamente pelo site de vídeos controlado pela empresa Google e pela Reuters TV.  O Yahoo! fez um acordo com a rede norte-americana de televisão ABC para ter a exclusividade de divulgação dos telejornais e séries da emissora ligada ao grupo Disney.

A empresa America Online (AOL) comprou o site de noticias políticas The Huffington Post, que servirá de base informativa para um sistema de notícias 24 horas similar ao da rede CNN. Por seu lado, a rede social Facebook fechou um acordo com o The Washington Post,  The Wall Street Journal e o matutino inglês The Guardian para que o site Social Reader  sirva de fórum online para debates entre leitores desses jornais . No início de março, um dos fundadores do Facebook comprou a quase centenária revista The New Republic, um dos ícones da intelectualidade norte-americana.

Este avanço das grandes empresas digitais em direção ao mundo jornalístico analógico pode mudar a cara da imprensa e acelerar a mudança de comportamentos e valores no consumo de notícias na maior parte dos países. Seria um golpe de misericórdia nos cambaleantes impérios jornalísticos tradicionais e um empurrão para que todos nós sejamos levados a dar um salto no escuro em matéria de comportamentos informativos.

Até agora, quem ia às compras eram os conglomerados jornalísticos tradicionais fascinados pela ideia de que a convergência de veículos lhes garantiria a redução de custos necessária para sobreviver ao tsunami financeiro provocado pela queda de quase 4,5% na massa de leitores de jornais, setor onde a redução de receitas chegou a assustadores 7,2%  desde 2010. Nas revistas e redes de TV, a queda foi de respectivamente 5%, 6% e 3,7%, segundo o State of the News Media 2012.  Em compensação, no mesmo período de tempo, a publicidade em veículos online disparou em 23% sem, no entanto, apresentar um desempenho financeiro capaz de torná-la autossuficiente.

Agora a tendência está se invertendo, mas o importante não é a questão financeira, mas sim a mudança cultural que as compras feitas pelos executivos do Vale do Silício vão provocar no meio jornalístico. A mudança tende a se acelerar na medida em que o comando das políticas editoriais passará para as mãos de jovens empreendedores que tiveram sucesso na internet usando como alavanca a combinação de interatividade com o público e desenvolvimento de megabancos de dados com informações sobre os usuários da rede mundial de computadores.

O cenário não se mostra necessariamente apocalíptico, mas não  há muitas dúvidas de que pode significar um pulo do escuro, já que é muito difícil prever o perfil da imprensa que emergirá dessa mudança de paradigmas informativos. A internet está provocando o surgimento de muitas coisas boas em matéria de democratização no acesso à informação, mas ainda é impossível saber se o processo deflagrado pelas grandes empresas do  mundo digital não conduzirá a uma nova concentração de poder de decisão.  

São duas tendências opostas sem desfecho previsível. É aí que está o pulo no escuro.

Quando a experiência é um ativo altamente valorizado

Na semana passada, o post  Redações tem a chave do relacionamento com o público  recebeu um único e lacônico comentário: Castilho, não ajuda né!  O texto foi interpretado, talvez por mais de um leitor, como uma dica para as direções de jornais lucrarem com um conhecimentoque estão jogando fora,  por ignorância e despreocupação.

Esta pode ser uma leitura do texto, mas a que me moveu a escrevê-lo é uma outra percepção, baseada em alguns fatos vividos por mim e por outros profissionais do jornalismo. No sábado (17/3), eu dei a segunda das duas aulas sobre "Contexto Jornalístico Atual" num curso de Gestão Editorial oferecido pelo ISCOM e, nela, os 40 alunos narraram a experiência mais impactante de contato com o público (leitores, ouvintes, telespectadores e internautas) .

Poucos dias antes, li o artigo "The Constant Gardner" no qual Sean Roach  fez para a Columbia Journalism Review  um relato detalhado dos seus dois anos como editor responsável por um projeto jornalístico hiperlocal, integrado ao projeto Patch.  Quase ao mesmo tempo, descobri a experiência do antropólogo e jornalista holandês Joris Luyendijk, autor de um blog que observa o sistema financeiro inglês.

Tanto o depoimento dos alunos como o texto de Sean Roach e a vivência de Joris Luyendijk têm em comum o fato de serem relatos sobre experiências sem a preocupação de criar teorias ou defender teses. São depoimentos diretos que nos permitem entrar em contato com realidades que ignoramos e que nos oferecem a chance de refletir sobre a nossa própria experiência.

No caso dos  alunos, foi possível abrir um debate sobre por que os jornalistas conseguem uma interação profunda com as pessoas afetadas por grandes tragédias — como é o caso das crônicas enchentes nas cidades localizadas no vale do rio Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina —, mas perdem esse contato em tempos menos traumáticos. 

Também foi possível identificar como os profissionais são pressionados pelo público para que a imprensa resolva problemas que, na verdade, são de responsabilidade das prefeituras, governos estaduais e federal.  Sem contato com as autoridades, as pessoas pedem a jornais, rádios, TVs e sites para que procurem os responsáveis e cobrem soluções. Isso coloca nas mãos de repórteres e editores um problema que para as empresas é uma mera questão de marketing quando na verdade é muito mais complexa.

A relação com a comunidade é o tema da experiência de Roach num relato cheio de perplexidades, frustrações e algumas esperanças.  Ao longo de dois anos ele foi editor do único jornal online das minúsculas cidades de Tarrytown e Sleepy Hollow (população somada de 21 mil pessoas), ao norte de Nova York. Viveu a experiência de jornalismo de imersão numa comunidade social e seu depoimento mostra as agruras de um tipo de jornalismo que começa a ganhar espaço. Roach trabalhava sete dias da semana, fazia de tudo na redação, desde sair à rua até participar de assembleias comunitárias, gastava em média 60 horas semanais de sola de sapato nas ruas.  

Assumiu o cargo com a responsabilidade de buscar em cinco anos o retorno do investimento de 50 mil dólares, mas o site nunca conseguiu ter mais de três banners pagos, o que mal chegava aos 5 mil dólares, insuficiente para pagar a folha salarial. Mas, se por um lado, o projeto foi um fracasso financeiro, por outro, ele despertou a comunidade para a participação na produção e no consumo de informações, o que provocou uma demanda extra sobre os jornalistas. Também aqui, o relacionamento com a comunidade gerou uma experiência inédita entre os profissionais, obrigando-os a repensar sua atividade.

A historia de Roach mostra que o jornalismo comunitário é viável, mas está longe de ser uma iniciativa sem riscos e sem sacrifícios.

Já o holandês Joris Luyendijk decidiu usar sua expertise antropológica e jornalística para investigar como é a comunidade financeira por dentro. Em vez de fazer um trabalho acadêmico, ele enveredou para  o lado jornalístico criando um blog por meio do qual passou a se relacionar com suas fontes e com o público voyeur interessado em saber como o seu dinheiro é administrado. Joris pede aos operadores de mesas de câmbio e agentes da bolsa de valores que contem suas histórias. Ele os provoca com uma pergunta direta: “Todo mundo odeia vocês. Vocês não se odeiam, não é? Então, por que não me contam suas vidas?”

As histórias recolhidas estão sendo publicadas no blog do projeto, que é patrocinado pelo jornal inglês The Guardian e serão posteriormente transformadas em livro, aí sim mais analítico. A principal filosofia do trabalho é a de que o mercado financeiro se tornou importante demais para ser deixado apenas para os agentes financeiros.

Estes três casos mostram como a experiência direta está servindo como motor principal de reflexões e projetos jornalísticos que podem alterar o padrão tradicional da atividade jornalística.  A preocupação em registrar experiências, que sempre foi um dos apanágios da profissão, tende agora a ganhar uma nova relevância na medida em que ela não está apenas voltada para o ineditismo e para o furo de reportagem, mas passa a ser orientada para a conversão de conhecimento bruto em conhecimento transmissível (publicado).  Este pode ser um dos nichos do jornalismo que está surgindo da crise do modelo atual.