Dá para ler 190 páginas datilografadas por minuto durante 24 horas?

O conhecimento não está mais só no cérebro das pessoas,  mas também na rede que interliga os individuo pensantes. Está é a polêmica tese defendida pelo norte-americano David Weinberger, da Universidade Harvard, no livro Too Big to Know (Grande Demais para ser  Entendido), que acaba de ser lançado no mercado .

Noutras palavras, o que Weinberger sugere é que não é mais possível separar os indivíduos das estruturas de interatividade.  A cultura tradicional baseia-se no fato de que o conhecimento, assim como a sabedoria, são atributos exclusivamente humanos, embora se expressem por meio de escritos, imagens ou sons.

Na era digital e da avalancha informativa o volume de conhecimento ganhou proporções ciclópicas e já não pode mais ser administrado apenas por mentes privilegiadas. O binômio homem/rede seria a alternativa para processar os 1,27 zetabytes de informação que são atualmente publicados na Web a cada 12 meses (1) . 

É o equivalente a 600 quatrilhões de páginas datilografadas, ou uma quantidade de documentos 84 milhões de vezes maior do que todo o acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA ( a maior do mundo).

Cada ser humano teria que ler, por ano,  100 milhões de páginas datilografadas de 30 linhas para dar conta de tudo o que é produzido no planeta em matéria de informação. Uma tarefa impraticável porque significaria ler 11.415 páginas por hora, dia e noite sem parar, ou 190 por minuto.

Estes números indicam que a mente humana já não é mais materialmente capaz de dar conta da absorção de tal quantidade de dados usando apenas os cinco sentidos. Este conhecimento, por motivos óbvios, não está mais apenas no cérebro humano. Ele está também nas redes virtuais que interconectam os cérebros humanos e disponibilizam, aos mesmos, os dados, informações e conhecimentos procurados.

David Weinberger (2), um dos pioneiros na exploração das conseqüências sociais e econômicas da internet , afirma no seu livro mais recente que “na medida em que o conhecimento passa a se estruturar em redes, a pessoa mais inteligente num recinto não é a que está dando uma palestra ou aula e nem o grupo de ouvintes ou participantes. É a sala onde acontece  a palestra ou aula. A pessoa mais inteligente é a sala”.

Weinberger esclarece que a metáfora não se refere à um super-cérebro, ou super computador, mas sim ao conjunto de links que transformam a mente humana e as redes um sistema  inseparável. Um sábio já não chega a este condição apenas absorvendo informação, mas participando de redes. Sem elas, não passaria de um ser comum.

A tese do pesquisador norte-americano vai um pouco além das teorias sobre inteligência artificial que foram muito badaladas no final dos anos 90 e início do século XXI mas depois perderam seu atrativo quando as redes começaram a ganhar espaço. 

E se Weinberger estiver certo, a tecnologia torna-se ainda mais relevante para o conhecimento humano, porque sem ela até as redes acabarão sendo soterradas pela avalancha informativa que não pára de crescer.  

Só o material produzido por empresas, governos, escolas e universidades, tanto em papel como em digital, cresce ao vertiginoso ritmo de 65% ao ano (3).  Usando o mesmo cálculo feito pelo estudo The Age of Exabytes, em 2013, teríamos que ler quase 19 mil paginas por hora,  316 por minuto.

Se formos pensar em termos de notícias, fica claro, sem precisar fazer exercícios matemáticos, que é impossível a um ser humano se dizer bem informado hoje em dia se não estiver conectado a uma ou mais redes.  Não dá para ler quatro edições completas de um grande jornal em um minuto.

Pessoal: vou viajar pelos próximos 15 dias mas não deixarei de postar. Apenas o ritmo ficará mais espaçado. Estarei de volta na segunda semana de fevereiro. Até lá

(1) Dados publicados no documento The Age of Exabytes.
(2) Weinberger foi co-autor do polêmico ClueTrain Manifest e dos livros Small Pieces Loosely Joined e Everything is Miscellaneous.
(3) Dados publicados no documento Tackling Information Overload, produzido pela Xerox

Uma cobertura eleitoral diferente é possivel. Basta cobrar da imprensa

Estamos entrando em mais um ano eleitoral e como sempre teremos que enfrentar novamente o velho ritual do desfile de candidatos e siglas prometendo as mesmas coisas, que todos nós sabemos não serão cumpridas, em sua grande maioria. Os políticos não mudam este script porque é o único que conhecem e controlam. A imprensa  vacila na aposta numa mudança de  cobertura eleitoral temendo perder alianças políticas e receitas publicitárias.

É mais ou menos isto que nos espera nos próximos meses quando assistiremos descrentes e céticos a mais uma dança de cadeiras na política regional bem como uma irritante mesmice na imprensa cuja estratégia editorial tem mais a ver com cobertura de uma corrida de cavalos do que de um processo de decisão política.

Mas por incrível que pareça, para mudar, basta um pouco de ousadia, como decidiu a edição norte-americana do jornal inglês The Guardianao lançar no final do ano passado  o seu projeto Agenda Cidadã,  uma parceria com o programa Studio XX, da Faculdade de Jornalismoda Universidade de Nova Iorque ( NYU).   É uma tentativa de mudar a agenda da cobertura eleitoral trazendo para o primeiro plano as preocupações dos eleitores em vez de priorizar a agenda dos candidatos e partidos, na campanha para a sucessão do presidente Barack Obama.

Ainda é cedo para avaliar se o esforço dará ou não certo, mas até mesmo instituições veneráveis no âmbito do jornalismo norte-americano, como a Nieman Foundation, acham que ele é uma alternativa possível. Os primeiros movimentos da campanha presidencial deste ano mostraram que os norte-americanos terão mais do mesmo, o que para muitos já é um sinal de alarme para quem se preocupa com o crescente distanciamento entre governantes e governados, tanto lá como aqui no Brasil.

Se quisermos que as eleições voltem a ser um processo capaz de gerar uma maior aproximação entre o eleitor e os políticos, a primeira coisa a fazer é mudar a agenda da campanha eleitoral. Não é a primeira vez que isto é tentado. Nos anos 80 surgiu a idéia de um jornalismo cívico cuja principal preocupação era quebrar a mesmice das manchetes de jornais e torná-las mais próximas dos problemas de bairros, ruas e pequenas cidades[1].

Alguns jornais norte-americanos e europeus chegaram a convocar assembléias de bairro para que políticos respondessem a perguntas de moradores. A experiência chegou a receber vários milhões de dólares em financiamentos de fundações internacionais,  mas depois sucumbiu às pressões dos grandes jornais e organizações jornalísticas que acusaram o jornalismo cívico de violar a isenção e imparcialidade da profissão.

Mais de 20 anos depois, a mesma linha é retomada num contexto bem diferente. Em primeiro lugar a insatisfação do público com a mesmice das coberturas eleitorais é muito maior,  o principio da isenção e distanciamento dos fatos já não é mais um dogma profissional e os jornais não são mais tão poderosos como nos anos 70 e 80, do século passado.

Isto faz com que, em teoria, os jornais já não tenham mais tanta coisa a perder se resolverem arriscar numa cobertura eleitoral sintonizada com as preocupações expressadas pelos eleitores em dezenas de pesquisas de opinião.  Trata-se de inverter a lógica do processo eleitoral que foi desvirtuada ao longo dos anos, quando a imprensa deixou de ser prioritariamente um serviço de utilidade pública para privilegiar atividades comerciais privadas.

O eleitor é o protagonista principal de uma eleição, mas o que vemos hoje é o controle dos políticos e dos partidos sobre a agenda de debates eleitorais.  Está  na hora de mudar as regras.  O público não pode mais ficar relegado à posição de expectador num debate pela TV ou radio. E a imprensa tem um papel fundamental nesta mudança de foco porque ela ainda tem algum poder de influencia sobre o publico.

Caso ela opte por promover uma mudança na agenda eleitoral, coisa que depende apenas dela, não há a menor dúvida de que contará com o apoio dos eleitores reaproximando-se do publico consumidor de informações impressas e áudio-visuais.  É claro que os candidatos e os partidos não vão gostar disto,  provavelmente usarão o velho argumento de que o jornalismo precisa ser imparcial, algo que perdeu impacto com a histórica ligação da imprensa com o poder político e econômico, em quase todo o mundo.

A mudança da agenda das coberturas eleitorais em 2012 não é apenas uma estratégia para ganhar as simpatias de eleitores. É uma tentativa de  correção de uma centenária distorção informativa e uma das possíveis alternativas para a recuperação das tiragens dos jornais. 



[1]Para mais detalhes consultar o livro Civic Journalism: haverá um modelo brasileiro? ,  de Marcio Fernandes.  Editora Unicentro, 2008

Novas mídias vencem primeira batalha mas a guerra continua

Os adversários das iniciativas SOPA e PIPA conseguiram impedir que ambos projetos  fossem votados no congresso norte-americano mas a questão está longe de ser resolvida. A votação das duas propostas apresentadas pelos defensores de um maior controle da internet visando proteger direitos autorais foi apenas adiada.

De qualquer maneira foi um resultado que se poderia classificar de surpreendente porque ninguém sabia ao certo o que poderia acontecer com o protesto contra uma iniciativa que poderia tolher todo o processo de remixagem de informações na internet. Alguns chegaram a falar em cerca de 10 mil sites que teriam aderido ao boicote iniciado pela enciclopédia virtual Wikipédia, mas este número é uma mera estimativa, um chute.

O mais importante é que o lobby da indústria cinematográfica de Hollywood, dos grandes conglomerados jornalisticos como o News Corporation (do milionário Ruperto Murdoch) e das industrias gravadoras musicais nos Estados Unidos não conseguiu forçar os congressistas norte-americanos a votar dois projetos que tem a simpatia da maioria conservadora tanto no Senado como na Câmara de Representantes.

Os conservadores perderam mas não jogaram a toalha. Daqui por diante os confrontos vão esquentar como mostrou o episódio da prisão do dono do site Megaupload e a represália do grupo Anonymous. O Megaupload é acusado de montar a maior rede de pirataria de músicas e vídeos na internet. Em resposta à detenção do alemão Kim Schmitz, na Nova Zelandia, os crackers invadiram a página do FBI norte-americano.

A coincidência da prisão e a represália contra o FBI deixou dúvidas na cabeça de muita gente porque os dois episódios ocorreram justo no dia do protesto mundial contra os projetos PIPA e SOPA. Ficou no ar a suspeita de que pode ter sido uma ação planejada para reduzir o impacto da vitória dos adeptos de uma internet sem censura e para assustar os conservadores por conta das invasões de sites governamentais e corporativos.

Estamos começando a assistir as primeiras batalhas nem tão virtuais assim numa guerra entre a velha e a nova ordem nesta transição de modelos econômicos, sociais, culturais e politicos provocados pela emergência da internet e da era do conhecimento.

Facebook cria "ondas de opinião" e ofusca papel da Globo no BBB12

Em toda esta polêmica em torno do suposto estupro no BBB12, o fato mais relevante é o papel cada vez mais influente que a rede social Facebook está desempenhando na formação de "ondas de opinião".

O caso todo surgiu por conta do Facebook porque se dependesse da Globo o episódio poderia ter passado em brancas nuvens. Tudo começou com o surgimento da suspeita de que uma participante tivesse sido estuprada por um colega de programa. A suspeita gerou uma polêmica entre internautas e  a Globo resolveu jogar água na fervura punindo o protagonista masculino no episódio.

A partir daí o caso tomou os rumos disparatados, com vários personagens buscando visibilidade pública, de ministros a policiais, passando por advogados, parentes, pastores e por ai vai. Até a Globo entrou de carona porque se aproveitou da máxima “falem mal de mim mas falem de mim”.

O episódio serviu no entanto para mostrar como os eventos públicos podem se tornar incontroláveis na medida em que o público passa a ter um protagonismo cada vez maior por meio das redes sociais na internet.

 O Facebook ocupa neste contexto um espaço especial  porque não só ele é uma “aldeia virtual” reunindo perto de um bilhão de participantes, como porque está deixando de ser uma instituição para se transformar num ambiente ou espaço público virtual, onde as regras e valores são reescritos constantemente.

Hoje , muita gente já começa a se perguntar se é possível viver sem o Facebook. Gostemos ou não da resposta, ela é não.  O Facebook como instituição, pode sumir como já aconteceu com o Myspace, a primeira rede social de importância mundial ou o que pode vir a acontecer com o outrora onipresente Orkut. Mas o espaço público continuará existindo.

Um espaço que está mudando os nossos comportamentos e também os nossos valores, como é o caso dos conceitos de privacidade, autoria e coletividade, na internet. Mas estes são temas  que podemos conversar mais adiante.

Há 12 anos, os produtores do reality show norte-americano  Survivor [1]perderam parte do controle sobre o desenrolar do programa porque os telespectadores formaram comunidades na internet para trocar informações e antecipar o desfecho de cada episódio, antes dele ir ao ar. As alternativas desenvolvidas pelo público resultaram mais interessantes que as da emissora, o que gerou uma batalha jurídica porque os produtores acusaram as comunidades de violar direitos autorais. Os produtores perderam.

O potencial desestabilizador do público em relação ao controle das emissoras sobre os seus programas já estava patente bem antes do surgimento do fenômeno Facebook.  E tudo indica que o que grande reality show está se transferindo para a internet. Um show movido por "ondas de opinião", fenômenos ainda muito pouco estudados mas que se formam sem que ninguem preveja e desaparecem da mesma forma.



[1]No Brasil, a Globo produziu uma adaptação da serie com o titulo de No Limite, transmitida entre 2000 e 2002, aos domingos.

O caso SOPA está nos obrigando a aprender a fazer politica na Web

Como era inevitável, uma batalha política interna nos Estados Unidos se transformou numa questão planetária na medida em que o tema envolve o futuro da internet.  Os protestos contra dois projetos de lei em tramitação no congresso norte-americano acabaram envolvendo desde a rede mundial de blgogueiros GlobalVoices até os mais importantes endereços da Web mundial.

Foi a primeira demonstração de força de toda a chamada nova mídia contra a possibilidade de punições por violação de direitos autorais . O embate chegou a ser classsificado pelo jornal francês Le Monde como um duelo de gigantes, porque de um lado está a poderosa indústria cinematográfica de Hollywood, junto com as principais redes de TV e gravadoras musicais dos Estados Unidos, e do outro, gigantes de internet como Google, Facebook, Wikipédia e a quase totalidade das milhares de pequenas e medias empresas desenvolvedoras de softwares espalhadas pelo planeta.

O protesto de 24 horas teve como principal protagonista a enciclopédia virtual Wikipedia que retirou do ar a sua edição em inglês por 24 horas criando um grande congestionamento em algumas bibliotecas públicas dos Estados Unidos por causa do enorme afluxo de estudantes procurando enciclopédias impressas para fazer trabalhos escolares.

A batalha político-parlamentar ainda está indefinida embora os adeptos da SOPA e da PIPA tenham perdido alguns adeptos importantes no  plenário do congresso norte-americano, mas a guerra da visibilidade tem um vencedor claro, a blgosfera e as empresas da internet. Quem entrou na rede nesta quarta feira (18/1) esbarrou a todo instante com sites usando tarjas negras.

A diversificação e disseminação viral do protesto impressionaram pela rapidez e descentralização já que ninguém assumiu o papel de coordenador ou porta-voz.  Esta é a regra da política cibernética, não há comando, não há slogan unificado, não se sabe quem participa, nem quando o movimento termina. Tudo é aleatório, fluido e imprevisível .   

Quem se baseou apenas na imprensa convencional não chegou a ter uma real dimensão do protesto contra Hollywood.  Os principais jornais mundiais, a televisão e até mesmo  os sites noticiosos de conglomerados jornalísticos fizeram uma cobertura discreta que se limitou ao registro dos fatos, sem contextualizar o problema central, que é o da liberdade de fluxos informativos na internet.  As questões de direitos autorais, pirataria e controle de domínios são apenas conseqüências da questão central.

O repórter deve contestar um entrevistado que mente ou distorce fatos?

Esta pergunta não é  nova mas esta semana ela provocou um grande bate boca na internet e nos meios jornalísticos. Ela foi feito por ninguém menos do que  o Editor do  Público, do jornal The New York Times,  Arthur Brisbane fez, em sua coluna, uma pergunta que tocou numa das  bases da profissão e deixou claro como está mudando o ambiente geral no jornalismo nesta era de transição de modelos informativos.

Os repórteres deveriam contestar as afirmações de um entrevistado quando o houver evidências de que ele não está dizendo a verdade? A pergunta foi feita no momento em que se inicia a campanha eleitoral norte-americana para a sucessão do presidente Barack Obama e como é praxe na política, os candidatos mentem, distorcem e omitem fatos pensando nas pesquisas de intenção de votos.  

O contexto político e a sugestão de Brisbane não são específicos dos Estados Unidos, pois se referem a uma realidade existente em dezenas  de outros países, inclusive aqui no Brasil. Temos eleições nacionais e regionais a cada dois anos,  quando somos levados a testemunhar uma periódica avalancha de cinismo político, onde apenas os casos mais gritantes merecem alguma consideração crítica.

O papel da imprensa como patrulha do governo, políticos, empresários e personalidades públicas está consagrada na retórica convencional e nos manuais da mídia. Por isto não deveria surpreender e nem muito menos gerar resistências no meio profissional. Mas acontece que a realidade não é bem esta. 

A questão da objetividade e isenção surge quase que automaticamente quando aparece u ma discussão como a provocada pelo Editor do Publico, do NYT.  Para os defensores da isenção, os jornalistas devem se limitar a reproduzir o que vêem ou ouvem, e só, em ocasiões especiais, o que sentem e sabem.  Seriam observadores acima dos conflitos de interesses e opiniões. Algo que o filosofo norte-americano Thomas Nagel,  tentou esclarecer cunhando a expressão The View  from Nowhere, que poderia ser traduzida por observação a partir de nenhum lugar.

A isenção plena seria uma condição utópica onde o jornalista veria a realidade sem se envolver nela, como se estivesse observando o planeta Marte por um telescópio. É óbvio que este tipo de postura não existe, mas mesmo assim os quesitos isenção e objetividade fazem parte do discurso oficial das empresas jornalísticas e de muitos jornalistas.

A contradição entre a vigilância sobre o governo  e a obrigatoriedade da  isenção é uma das conseqüências da duplicidade de papeis  imposta aos jornalistas depois da transformação dos jornais em indústrias da comunicação.  A informação condiciona os jornalistas a uma responsabilidade direta com o fornecimento de dados, fatos e notícias que ajudem as pessoas a tomar decisões. Daí um compromisso total com a veracidade informativa e com o patrulhamento dos que a ignoram.

Para as empresas, a informação é um produto que chama publicidade e com ela o faturamento.  Para cumprir esta função deve contar com a confiança dos anunciantes, razão pela qual o conteúdo editorial deve ser consideradoimparcial para evitar a suspeita de manipulação por interesses políticos e corporativos. 

Como as indústrias da comunicação se tornaram extremamente poderosas, tanto econômica como politicamente, a preocupação em reforçar a imagem da imparcialidade e isenção acabou sendo mais forte do que a promoção da vigilância cidadã. Daí o espanto com a pergunta de Arthur Brisbane e a polêmica desatada no blog PressThink, do professor de jornalismo Jay Rosen.

A idéia em debate é de que os jornalistas, ao detectarem uma inverdade pronunciada por um candidato, publiquem a declaração e em seguida acrescentem ao texto os dados, fatos e notícias que contradizem o entrevistado.   Brisbane, mesmo se definindo como um tradicionalista em matéria de jornalismo, ressalta que o assunto merece ser discutido porque os leitores estão cobrando, com intensidade crescente,  um maior compromisso dos jornais com a verdade.

O problema é que, segundo o Editor do Publico, do NYT, como é que o jornal vai ser objetivo e isento no seu patrulhamento? O professor Rosen não dá uma resposta direta e embora defenda a posição da  “observação a partir de nenhum lugar”  propõe que o jornalismo volte a dar mais importância à busca de verdade do que à preocupação com a isenção. Ele chegou a comparar a situação dos jornalistas a do médico que passa a se preocupar mais com uma UNIMED que paga seus serviços do que com a saúde do paciente.

O público cobra mais compromisso dos jornais com a veracidade dos fatos, dados e noticias, enquanto as empresas, por sua própria dinâmica interna,  são levadas a se preocupar mais com a imparcialidade e distanciamento dos fatos para tranqüilizar seus anunciantes. São duas situações diferentes. Cabe aos jornalistas fazer uma escolha.

(Publicado originalmente no Observatório da Imprensa)

Depois da primavera árabe, protestos de inverno agitam a antiga Europa comunista

O ativismo cibernético está definitivamente sendo incorporado ao dicionário político da era digital como uma estratégia de ação que foge completamente ao modelo convencional e desafia a capacidade de analise dos cientistas políticos.

Ao contrário das estratégias tradicionais baseadas em lideranças fortes e propostas ideológicas,  este novo tipo de ativismo abandona estes dois itens e aposta  em dois itens básicos: comunicação e informação.  

A nova modalidade de ação política substituiu os líderes carismáticos e manifestos altissonantes pela simbologia da mobilização anônima, pela adesão discreta, pela disseminação viral de informações, pelo uso dos canais eletrônicos de comunicação e principalmente pela recuperação de valores como honestidade, transparência,  colaboração, diversidade e democracia.

Todos estes elementos estão sendo invocados pelos cidadãos russos que decidiram desafiar o autoritarismo do primeiro ministro Vladimir Putin prometendo uma mega manifestação para o dia 4 de fevereiro em Moscou para exigir a anulação das eleições parlamentares de 5 de dezembro, sobre as quais pesam acusações de fraude generalizada.

Será a reedição ampliada o protesto do dia 24 de dezembro quando quase 100 mil oposicionistas desafiaram a neve e o frio de menos seis graus Celsius para expressar sua indignação com os resultados do pleito. Os ativistas prometem depois levar o movimento para toda a Rússia, usando o know how desenvolvido para juntar dinheiro e distribuir noticias pela internet, por meio do Yandex, uma espécie de Google russo.

A circulação de informações e a formação de redes locais descentralizadas por meio do Facebook permitiu que em dezembro, os ativistas conseguissem juntar quase sete milhões de rublos  (cerca de 405 mil reais) em menos de duas semanas para financiar  a organização do protesto do dia 24 de Natal, em Moscou.

A mesma estratégia está sendo usada na Hungria, outra ex-república socialista da antiga União Soviética, onde o primeiro ministro Viktor Orban enfrenta uma onda de protestos populares desde as eleições parlamentares de 2010. O pleito, considerado fraudulento pela oposição trouxe de volta ao poder o partido direitista Fidesz, de Orban cujo apelido é Viktator, por causa de seu autoritarismo.

Também na Hungria, a internet exerce um papel fundamental na mobilização oposicionista, embora em menor escala do que na Rússia. Viktator está em rota de colisão com a imprensa húngara por conta dos rígidos controles sobre a publicação de noticias envolvendo os protestos.  Jornalistas estão em greve de fome diante da TV estatal  há 28 dias contra a demissão de colegas acusados de simpatias oposicionistas.

Os protestos na Hungria tendem a se agravar porque o país, que está na lista negra das organizações financeiras internacionais por conta de seu endividamento prepara-se para impor um pacote recessivo similar aos já adotados na Grécia, Espanha e Itália.

A situação é complicada porque os demais países europeus exigem a mudança da nova constituição em vigor desde o dia primeiro de janeiro, considerada autoritária e centralizadora. Para  o jornal inglês The Guardian, a situação na Hungria caminha para um agravamento explosivo.

Os novos dirigentes políticos surgidos nos países do antigo bloco comunista europeu perdem rapidamente apoio popular conquistado após o fim da União Soviética porque acabaram praticando os mesmos erros que provocaram o fracasso do socialismo no Velho Mundo: autoritarismo, corrupção e sectarismo. As promessas de recuperação econômica também estão virando fumaça por conta da crise do euro e da gastança generalizada dos novos dirigentes. A frustração  alimenta a nostalgia dos mais velhos, especialmente na Russia, e o coletivismo cibernético entre os mais jovens.

A crise do euro golpeia a imprensa do Velho Mundo e reabre debate sobre relações entre Estado e imprensa

Mais de 100 jornais italianos estão ameaçados de fechar as portas agora no início de 2012 em conseqüência da suspensão dos subsídios fornecidos pelo Estado como parte de um esforço de quase 50 anos para diversificar a informação no país.

O corte de 2/3 dos 170 milhões de euros ( 404,6 milhões de reais) em subsídios anuais à imprensa italiana foi imposto ainda no governo de Silvio Berlusconi  mas foi mantido pelo atual primeiro ministro Mario Monti como parte do programa de austeridade destinado a evitar o caos econômico no país.

O corte afetará especialmente os jornais locais e a imprensa oposicionista de tendência socialista, pois os grandes veículos continuam usufruindo vantagens como anistia fiscal e tarifas postais reduzidas, mesmo perdendo também o subsídio direto.

Desde o final de dezembro, os jornalistas do Liberazioneestão acampados na redação para tornar pública a sua resistência ao fechamento. O jornal, ligado ao Partido Comunista Refundado (dissidentes do antigo PC italiano), já não é mais impresso e transformou-se numa publicação online.

Idêntico destino ameaça os também oposicionistas Il Manifesto(socialista independente) e L’Unitá (o outrora influente jornal do PC italiano).  O Il Manifesto foi fundado em 1969 e ao longo de toda a sua história foi um crítico mordaz da linha soviética do PC italiano bem como um jornal famoso por sua ironia e criatividade. Outro ameaçado,  o L’Unitá, foi fundado em 1924 pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, como jornal oficial do PCI.  Depois da queda do fascismo foi o jornal da maioria dos grandes intelectuais italianos.

Mas não é só na esquerda que o corte de subsídios  está provocando uma mortandade de jornais. O Avvenire, fundado em 1968 por iniciativa do então Papa Paulo VI , é o jornal semi oficial da igreja católica italiana, enquanto o Avanti!,  fundado em 1896 como um matutino socialista, mais tarde mudou de linha e no governo passado era dirigido por Walter Lavitola um amigo pessoal do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, igualmente acusado de corrupção.

A esmagadora maioria dos jornais ameaçados de fechamento é formada por pequenas e médias publicações impressas regionais e locais bem como emissoras provinciais de rádio.  As razões econômicas para justificar o fim dos subsídios à imprensa italiana são comuns às já usadas para promover os programas de ajuste adotados na Grécia, Espanha, Irlanda e outros países europeus. Mas o caso italiano é mais significativo pelo vulto dos recursos e pelo fato de que ele recoloca em discussão as relações entre o Estado e a imprensa, num momento em que esta última passa por uma crise inédita na sua história.

Na Europa, a imprensa sempre teve uma série de favores estatais, especialmente em Portugal, França, Itália e Espanha. A alegação era de que o subsídio estatal  viabiliza a diversidade informativa num ambiente de desigualdade econômica. Hoje, o governo alega que a diversidade é menos importante que a crise do euro provocada pelo endividamento público. Do ponto de vista contábil, o primeiro ministro Mario Conti pode ter razão, mas as conseqüências do corte vão muito além de zerar um déficit.

É mais um elemento a ser levado em conta no debate sobre o futuro da imprensa no mundo. A crise de modelos de negócios acaba de fazer 100 vítimas no The New York Times. O jornal, que muitos consideram o líder na experimentação de novas fórmulas  informativas, deu como presente de Natal, a demissão de 100 repórteres e redatores , elevando para 200 o número de profissionais que perderam o emprego  desde 2008.

O corte é especialmente traumático para a imagem do jornal que até agora orgulhava-se de sua preocupação com a qualidade informativa e apresentava como garantia o fato de ter uma redação com 1.250 jornalistas efetivos , a mais populosa entre todos os jornais norte-americanos.  

O Times ainda não achou o modelo ideal para sobreviver como jornal, mas já adotou a mesma fórmula de outras publicações:  reduzir o efetivo da redação, uma medida que agrada à contabilidade mas tem conseqüências irreversíveis entre os leitores.

 As relações futuras entre os Estados e a imprensa ainda são um tema cheio de incertezas e preconceitos. Mas a cada dia crescem os indícios de que como a produção de jornais tornou-se um negócio pouco lucrativo, os investidores tendem a procurar outros setores econômicos e o poder público terá que voltar a ser realmente publico para atender à uma necessidade da população, que precisa de informação diversificada e livre de interesses comerciais e eleitorais.

Caros leitores: Desejo a todos vocês um feliz 2012 e que a gente possa conversar muito ao longo do ano. Estou de novo no batente.

Porque só os jornalistas tem direito ao sigilo de fontes informativas?

Há semanas, um juiz norte-americano condenou uma bloqueira também norte-americana a pagar uma multa de 2,5 milhões de dólares porque ela se negou a revelar as fontes de uma denúncia feita contra uma empresa financeira. O magistrado alegou que os jornalistas têm direito ao sigilo de fontes, mas os demais mortais não gozam desta mesma regalia.

A decisão do juiz provocou de uma enorme polêmica na internet e o assunto imediatamente se internacionalizou como já rotina na rede,  desde que a era digital se tornou um fenômeno global. As opiniões se dividiram na resposta à pergunta: porque os jornalistas têm direito ao sigilo de fontes e os blogueiros, ou blogueiras, não?

Claro que surgiram as mais diversas razões tanto pró como contra, mas uma coisa ficou clara na análise dos twits, postagens em blogs, debates no Orkut e Facebook, bem como nós fóruns online:  os blogueiros acusaram os jornalistas de usufruir um privilégio, enquanto os profissionais justificaram o direito ao sigilo de fontes como uma proteção ao seu trabalho informativo.

Cada lado viu o problema pelo ângulo que mais lhe convém, mas a questão é bem mais ampla e profunda do que isto.  Quando a imprensa era a única fonte de notícias para os membros de uma sociedade, o sigilo das fontes era uma garantia dada aos jornalistas a partir da expectativa de que ele obedecesse fielmente o código de conduta de profissão, na hora de avaliar uma informação. Era também uma proteção poderosa para os donos de empresas jornalísticas contra processos judiciais por difamação, injúria ou danos morais.

Mas no momento em que a internet deu às pessoas comuns o poder de publicar informações em veículos como blogs, páginas Web, redes sociais, fóruns e micro-mensagens tipo Twittero contexto informativo mudou e com ele a questão do sigilo de fontes.  Se a proteção ao anonimato de informantes é vista como uma garantia de que o fluxo informativo não será interrompido por ações legais, então não se trata de um privilegio, mas sim de uma norma válida para todos os que publicam notícias de forma profissional ou não.

É evidente que pelo fato dos jornalistas serem poucos comparados com aos blogueiros em todo mundo (estima-se que sejam mais de 200 milhões)  fica mais fácil cobrar-lhes comportamentos éticos do que a uma multidão de informantes autônomos, que não obedecem a nenhuma estrutura hierárquica. .  Mas ai temos uma questão de controle e viabilidade e não de um direito civil.

Também não podemos esquecer o fato de que o cidadão é estimulado a fazer denúncias anônimas pelos conhecidos números telefônicos do Disque Denúncia, um recurso muito usado pelas polícias para obter informações sobre delinqüentes e membros do crime organizado.  Tanto o Disque Denúncia como o sigilo de fontes usam o recurso do anonimato como estímulo e garantia de que o autor da denúncia não sofrerá represálias pelo fato de ter passado a informação a outra pessoa. Faz-se uma distinção entre o fato denunciado e o autor da denúncia.

Se é esta a questão fundamental , então os blogueiros tem tanto direito ao sigilo de fontes quanto os jornalistas, já que partimos do princípio de que não se pretende instituir privilégios. Se a justiça dá ao autor da denúncia garantias de sigilo em beneficio do fato denunciado,  a qualificação do interlocutor (jornalista ou blogueiro) da fonte informativa passa a estar vinculada ao fato. Se o fato é relevante e verídico, pouco importa para a sociedade se quem publica a denúncia é um profissional ou um amador.

Mas a questão não se esgota aí.  Como fazer com que os milhões de blogueiros assumam a responsabilidade e as conseqüências do usufruto do direito ao sigilo de fontes? Esta pergunta não tem resposta atualmente e integra o arsenal de desafios colocados diante da sociedade contemporânea pela mudança de comportamentos e valores imposta pela era digital e pela internet.

A imposição de normas e regulamentos não pode ser descartada da mesma forma que é necessário entender que o surgimento da blogosfera gera um processo de aprendizado no uso da informação. Vamos ter que conviver com um debate contínuo sobre este problema, vivendo momentos em que a tendência à normatização ou regulamentação torna-se mais forte e outros, em que o descontrole ajuda a encontrar novas soluções.

Vocês leitores tem a maior responsabilidade nisto, já que é da diversidade das suas opiniões e de conhecimentos  que vão surgir as respostas para as perguntas ainda sem respostas.  Mas é preciso que estas opiniões sejam publicadas. Se desejarem, a área de comentários deste blog está à disposição de todos.  Meu objetivo neste post foi apenas colocar o tema na roda  pois não sou e nem tenho a pretensão de ser um especialista na questão.

 Agora só me  falta desejar a vocês um bom descanso natalino e nos encontramos outra vez no inicio de 2012. Fui...

Pesquisa acadêmica prevê apenas quatro grandes jornais impressos depois de 2015, nos EUA

Um relatório baseado em 10 anos de investigações será divulgado em janeiro pela Universidade do  Sul da California, unidade de Annenberg, e antecipa que além do The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal  e USA Today, sobreviverão apenas os jornais locais que decidirem mudar sua estratégia de negócios .

O diretor do Center for the Digital Future(Centro para o Futuro Digital), Jeffrey Cole, adiantou as linhas gerais do estudo e admitiu que outras previsões feitas antes  sobre o fim dos jornais impressos já falharam anteriormente, mas salientou que o desfecho é inevitável, “pode haver variação de meses, mas não há dúvida de que estamos diante do fim de uma era”.

A Escola de Comunicação e Jornalismo da USC/Annenberg é um dos três mais respeitados centros de estudo e pesquisa sobre jornalismo nos Estados Unidos. Embora o documento tenha atraído mais atenção pelo fato de marcar uma data para a agonia do jornal impresso como um negócio lucrativo, ele poe mais ênfase numa série de perguntas ainda sem respostas.  

A grande questão levantada pelo documento se refere às mudanças que a expansão acelerada da tecnologia digital está provocando nas nossas vidas. Cole afirma na página web do relatório que “os Estados Unidos estão às vésperas de uma mudança radical e lança a pergunta: “Até que ponto estamos preparados e dispostos a pagar o preço que a tecnologia está cobrando em nossas vidas?”

O informe “Is America at a digital turning point?” destaca mais de 100 dilemas a serem enfrentados pelos norte-americanos, destacando entre eles:  

·a questão da credibilidade online,

·a avalancha informativa,

·a obsolescência dos  desktops e a sua substituição pelos tablets,

·a implantação do trabalho contínuo (24 horas, sete dias da semana),

·o fim do hábito de ler jornais matutinos,

·a perda da privacidade individual,

·a incógnita da política via internet,

·a mudança dos hábitos de compra de bens de consumo.

As questões levantadas pelo documento já foram tratadas em vários outros estudos e outras universidades e centros de pesquisa tanto dos Estados Unidos com da Europa e Japão. Mas o que ele destaca é a constatação de que o principal dilema deste momento de transição não é a tecnologia mas sim os valores e comportamentos que ela altera.

A mídia convencional e também os grandes portais da Web ainda estão fascinados pelos gadgets eletrônicos e pelos softwares capazes de automatizar processos e ampliar a capacidade de processamento de informações. São raros os estudos sobre como estas mudanças já impactam o nosso quotidiano e vão transformá-lo ainda mais no futuro próximo.

Pouca coisa se avançou neste caminho, mas apesar de estarmos apenas engatinhando na avaliação das mudanças nos comportamentos e valores da era digital já é possível antever que será um processo extremamente complexo porque:

·a avalancha informativa multiplicou o número de variáveis a serem consideradas em qualquer estudo,

·a diversificação e segmentação de conhecimentos viabilizaram a investigação de nichos sociais, econômicos, políticos e culturais em nossa sociedade;

·a estatística e a probabilidade ganham espaço como novos parâmetros para certificação de credibilidade;

·surge uma nova relação entre o individual e o coletivo;

·a hierarquia perde importância em favor da heterarquia;

·e as afirmações absolutas cedem terreno para a abordagem complexa dos fenômenos e processos sociais.

Nenhum dos itens mencionados acima pode ser considerado absoluto e irreversível. Se há uma coisa que a era digital está mostrando de forma quase brutal esta é a de que tudo muda com uma rapidez perturbadora. Conviver com a incerteza e com a insegurança parece ser o nosso grande desafio daqui por diante.