Imprensa e blogs: convivência ou competição?

Dois estudos publicados há pouco nos Estados Unidos estão provocando muita polêmica entre jornalistas e blogueiros porque ambos tentam responder uma pergunta que tira o sono dos executivos da imprensa: quem tem mais capacidade de formar opinião , os jornais ou os blogs?

 

Quatro especialistas das universidades Cornell e Stanford, ambas nos Estados Unidos, acabam de publicar um trabalho no qual afirmam que uma notícia vira tema de jornais impressos duas horas e meia antes de tornar-se o assunto do momento entre os blogs na internet.

 

O jornal The New York Times interpretou os dados do estudo como uma evidência de que a imprensa escrita continua determinando a agenda de interesses do público e que os blogs funcionam mesmo é como caixa de ressonância.

 

Já o jornalista e marqueteiro amador Bill Wasik, editor sênior da revista Harpers, lançou na semana passada o livro  And Then There’s This (E então isto aconteceu, numa tradução livre) no qual estuda a disseminação de informações na Web, em especial as que circulam no formato boca-a-boca.

 

Wasil tornou-se famoso na imprensa norte-americana por ter promovido em 2003, em Nova Iorque, a primeira flash-mob, um tipo de manifestação relâmpago onde as pessoas são convocadas pela internet ou por telefones celulares. No seu livro ele diz que uma notícia circula com mais velocidade na Web quando ela pode ser usada para reforçar a artilharia verbal de grupos em confronto.

 

Ambos estudos se dedicam a investigar a propagação viral de informações. O documento dos cientistas usou métodos importados da biologia molecular para investigar como as memes (unidades de informação) circulam na internet. Já Bill Wasik usou os resultados de suas experiências com marketing viral na rede para construir as suas teorias.

 

A propagação das informações na Web tornou-se um tema badalado  entre os pesquisadores porque ele pode fornecer elementos chaves para os tomadores de decisões e os formadores de opinião determinarem quando e como uma notícia tem os elementos que fazem as pessoas passá-la adiante.

 

Embora o The New York Times tenha apresentado a pesquisa Meme-tracking and the Dynamics of the News Cycle como uma evidência da superioridade dos jornais impressos na determinação da agenda pública, a grande maioria dos estudiosos da internet como o jornalista, escritor e pesquisador Chris Anderson assinalaram que os blogs mostram uma capacidade muito maior do que a dos jornais para repercutir um mesmo fato, dado ou noticia.

 

A pesquisa foi feita antes da explosão do fenômeno Twitter e suas conclusões devem ser vistas agora num contexto diferenciado, principalmente depois da morte do cantor Michael Jackson, quando a notícia circulou na internet bem antes e muito mais rápido que a própria televisão, nos Estados Unidos.

 

O fato é que atualmente já não é mais possível tratar a imprensa escrita e o conjunto dos blogs e twitters como ambientes separados e muito menos como entidades em conflito. A pesquisa tomou o site Google News como parâmetro para distinguir imprensa convencional dos weblogs. Acontece que entre os 4.500 jornais monitorados pelo mecanismo de busca e publicação de notícias há pelo menos 500 blogs, o que por si só já altera a representatividade da amostra.

 

A imprensa e os blogs estão interligados porque de nada adianta publicar primeiro se a notícia não circula e não entra na agenda. Os jornais levam uma vantagem de natural sobre os blogs porque tem um sistema voltado para a captura, processamento e publicação de noticias. Já a grande maioria dos mais de 120 milhões de blogs espalhados pelo mundo é produzida por indivíduos, tem reduzida capacidade investigadora mas em compensação são mais adaptados para o comentário e opinião.

 

Por mais que se procure dar um caráter competitivo e até conflitivo à relação entre imprensa e blogs, o fato concreto é que ambos estão condenados a conviver porque são parte integrante do processo de circulação destas “moléculas informativas”  chamadas memes e que são as responsáveis por tudo aquilo que sabemos.

 

 

(Postado originalmente no Observatório da Imprensa)